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10/06/2026 às 17h50
19
Redacao
Maringá / PR
Com 97,3% das urnas contabilizadas até as 11h desta quarta-feira (10), o candidato da esquerda aparecia à frente de Keiko Fujimori por cerca de 19,8 mil votos, após uma disputa marcada pelo equilíbrio e por sucessivas mudanças de liderança.
No entanto, mais do que definir o próximo ocupante do Palácio de Governo, a eleição expôs desafios que acompanham o Peru há anos. Entre eles estão a polarização política, o avanço da criminalidade, a fragmentação partidária e a dificuldade de construir governos duradouros.
Dessa forma, quem vencer a corrida eleitoral assumirá um país que vive uma das mais profundas crises institucionais da América Latina.
O país que terá seu nono presidente em dez anos
Para entender os desafios do próximo governo, é preciso olhar para a última década. A instabilidade política peruana tornou-se uma das principais marcas do país e ajuda a explicar a tensão que cerca o atual processo eleitoral. Segundo a advogada especialista em Direito Eleitoral Luciana Gaston Schwab, o Peru teve oito presidentes em apenas dez anos e agora se prepara para eleger o nono.
Nesse período, Pedro Pablo Kuczynski renunciou ao cargo em 2018. Na sequência, Martín Vizcarra foi destituído pelo Congresso em 2020. Pouco depois, Manuel Merino assumiu a Presidência, mas permaneceu apenas cinco dias no cargo antes de renunciar em meio a protestos populares. Posteriormente, Francisco Sagasti comandou um governo de transição até as eleições de 2021.
Ainda assim, a crise institucional não chegou ao fim. Pedro Castillo, eleito naquele ano, sofreu impeachment após tentar dissolver o Congresso e acabou preso. Mais tarde, Dina Boluarte também foi afastada do cargo em meio a acusações de corrupção e denúncias relacionadas à repressão de manifestações.
Em seguida, Oré foi destituído após acusações de má conduta funcional, até a chegada do atual presidente, Zelada. Para a especialista, a sucessão de governos interrompidos demonstra que os problemas do Peru vão muito além das disputas eleitorais.
Desde o fim do governo Ollanta Humala, nenhum presidente conseguiu concluir normalmente seu mandato. Além das crises políticas recorrentes, o próprio desenho institucional contribui para esse cenário. Enquanto no Brasil um processo de impeachment exige tramitação nas duas Casas do Congresso, o sistema peruano historicamente permitiu mecanismos mais rápidos de destituição.
Soma-se a isso a previsão constitucional de afastamento por “incapacidade moral permanente”, um conceito frequentemente criticado por sua subjetividade.
O peso permanente do fujimorismo
Nesse contexto de instabilidade, um personagem continua exercendo influência decisiva sobre a política peruana: o fujimorismo. Mesmo sem nunca ter chegado à Presidência, Keiko Fujimori permanece como uma das figuras mais influentes do país. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, ela transformou o movimento político criado por seu pai em uma força capaz de influenciar o Congresso e mobilizar milhões de eleitores.
Por um lado, seus apoiadores associam o fujimorismo à estabilidade econômica, ao combate ao terrorismo e à preservação do modelo de livre mercado. Por outro, seus críticos lembram acusações de autoritarismo, corrupção e violações de direitos humanos ocorridas durante a década de 1990.
Além disso, a força do chamado antifujimorismo continua sendo um fator determinante nas eleições peruanas. Assim, parte do eleitorado vota não apenas a favor de um candidato, mas também contra a possibilidade de retorno do grupo político ao poder.
Dois projetos de país em disputa
Se o fujimorismo continua dividindo opiniões, a eleição também colocou frente a frente duas visões bastante distintas para o futuro do Peru. De um lado, Keiko Fujimori reúne apoio do setor empresarial, da classe média urbana e das elites financeiras concentradas principalmente em Lima e na região costeira.
Sua plataforma está baseada na manutenção da Constituição de 1993, na defesa do livre mercado, na estabilidade macroeconômica e no endurecimento do combate à criminalidade. Não por acaso, a segurança pública ganhou destaque durante a campanha. Diante do aumento dos casos de extorsão e da expansão do crime organizado, muitos eleitores passaram a enxergar políticas mais rígidas como uma prioridade.
Do outro lado, Roberto Sánchez reúne setores ligados à esquerda e ao campo progressista. Sua base eleitoral está concentrada entre trabalhadores rurais, camponeses, sindicatos, mineiros e populações das regiões andinas e do interior.
Enquanto isso, suas propostas incluem maior participação do Estado na economia, mudanças nas regras de exploração de recursos naturais e a convocação de uma nova Assembleia Constituinte. Para seus apoiadores, essas medidas são necessárias para corrigir desigualdades históricas e ampliar a inclusão social.
Na prática, a disputa evidencia a existência de dois Perus: um mais urbano, costeiro e identificado com a economia de mercado; e outro localizado no interior do país, que reivindica reformas estruturais e maior presença do Estado.
O verdadeiro desafio começa após a eleição
Entretanto, independentemente do resultado das urnas, os desafios do próximo presidente começarão logo após a posse. Segundo Luciana Schwab, o futuro mandatário continuará enfrentando elevado risco de conflito com o Congresso. Embora reformas recentes tenham restabelecido o sistema bicameral, a fragmentação partidária ainda dificulta a formação de maiorias estáveis.
Além disso, nenhum dos candidatos conquistou maioria absoluta no Parlamento. Como consequência, o próximo governo dependerá de negociações permanentes para aprovar projetos e implementar sua agenda. Ao mesmo tempo, o Congresso consolidou-se nos últimos anos como um dos principais centros de poder da política peruana.
Apesar da baixa popularidade entre os eleitores, a instituição teve papel decisivo em sucessivas crises e interrupções de mandatos presidenciais. Diante desse cenário, a especialista defende reformas capazes de reduzir a pulverização partidária, aperfeiçoar as regras de impeachment e ampliar os mecanismos de transparência e combate à corrupção.
Por fim, Schwab avalia que o maior desafio será reconstruir a confiança da população nas instituições democráticas. Afinal, em um país que se prepara para ter seu nono presidente em apenas dez anos, recuperar a estabilidade política talvez seja uma tarefa ainda mais difícil do que vencer uma eleição. (msn)
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